6 de abr de 2009

Dieta Atkins: a questão do carboidrato

Coluna do Estêvão

Aqueles que procuram uma dieta para perder peso tendem a ver a “dieta do dr. Atkins”, já de início, com uma grande simpatia. Isso se deve á característica mais marcante da dieta: ingestão calórica livre. Isso mesmo, os que desejam perder peso podem, na dieta Atkins, ingerir a quantidade que quiserem de alimento (a famosa quantidade “ad-libitum”), com uma condição: do total ingerido, a quantidade de carboidrato deve ser acentuadamente reduzida, não só em relação á alimentação normal mas também reduzida em relação a dietas restritivas. Essa singularidade confere o nome de dieta low-carb (algo como “dieta de carboidrato em baixos níveis”) a esse tipo de dieta. Mas como é possível que, perante uma ingestão completamente permissiva de comidas com alto teor gorduroso e protéico, ainda se perca peso? Antes disso, uma pergunta fundamental deve ser feita: realmente se perde peso com a famosa “dieta Atkins”?
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Criada na década de 70, a dieta Atkins já conta, segundo estimativas, com um total de 20 milhões de adeptos. Com números tão expressivos, o conflito sobre a efetividade da dieta também era grande: até o começo dessa década, contudo, não havia pesquisas científicas que dessem embasamento de provas para a discussão. As provas começaram a surgir em diferentes artigos, mas a presença de possíveis vieses ou pontos fracos nas pesquisas colocava em dúvida o caráter definitivo desses trabalhos. Em 2002, surgiu um artigo promissor nesse campo – justamente o artigo em discussão na última reunião de Tópicos.
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O artigo em questão avaliou pacientes entre 18 e 65 com IMC de 26 a 33 (sobre-peso á obesidade) por 6 meses, e foi realizada uma pré-seleção de indivíduos saudáveis. Foram realizados exames de eletrocardiograma, avaliação de histórico médico e medição dos níveis de cetona urinária, além de não terem sido permitidos indivíduos que haviam estado em dieta para perda de peso ou tomado pílulas para emagrecer nos 6 meses anteriores á pesquisa, ou mulheres grávidas/ em período de amamentação. O ponto da chave da dieta foi a ingestão máxima de carboidratos limitada a 25g/d, sendo que o consumo de gorduras e proteínas estava liberado. Toda a ingestão, contudo, deveria ser colocada, pelos próprios pacientes, em um caderno de anotações, depois avaliado pelos autores do estudo. Avaliações foram feitas na oitava, décima sexta e vigésima quarta semanas que se seguiram ao início do estudo, onde foram coletadas amostras de urina e de sangue, com avaliação de diversos parâmetros (creatinina, triglicerídios, cálcio, colesterol e ácido úrico, por exemplo). A questão da aderência á dieta usou como meio de avaliação os relatos do paciente em questão, os registros de alimentos ingeridos, e cetona urinária – para toda dieta com menos de 40g de carboidrato por dia, os níveis urinários de cetona aumentam significativamente. E os resultados do estudo? Aí que as respostas interessantes aparecem. Pela conclusão do artigo, verificou-se que, sim, a dieta Atkins promove redução de peso corporal, e, o que é importante, da porção de massa gorda desse peso: em média, perdeu-se 9 kg (10% da massa média), o suficiente para se perder, também em média, 3 pontos no IMC, o que trouxe um forte indício da eficácia da dieta Atkins. Nos resultados dos exames laboratoriais de urina e sangue, muitos parâmetros não apresentaram variação significativa, mas houve mudanças importantes e surpreendentes. Entre elas, observou-se redução dos níveis de colesterol, assim como nos níveis de triglicerídios, menor quantidade de LDL e, inversamente, aumento na quantidade de HDL. Por mais surpreendente que seja, uma dieta com altos teores de alimentos gordurosos trouxe variações que corresponderam á indicadores de uma melhor saúde vascular.
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Mas como isso tudo é possível, a começar pela perda de peso? Pelas possibilidades levantadas pelo próprio artigo, algumas possibilidades são levantadas (além da hipótese do próprio Atkins, que prega que a ingestão de elevadas quantidades de proteína aumenta o gasto de energia 24 horas por dia). Dessas, a de maior destaque é a afirmação de que a própria natureza da dieta leva ao emagrecimento do indivíduo, devido a dois fatores: baixo número de opções (o que faz a vontade de comer diminuir com o tempo), e o fato de que a ingestão de proteínas traz uma sensação de saciedade bem maior que a ingestão de carboidratos e gorduras.
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Numa reflexão bioquímica, contudo, também pode-se lembrar que os baixíssimos níveis de carboidratos (e, consequentemente, glicose) no sangue mexem de maneira significativa na relação insulina/glucagon, fazendo com que todo o aparato metabólico do organismo fique voltado para um objetivo: manutenção de níveis mínimos de glicose para tecidos alvo, e concomitante manutenção de disponibilidade energética geral para todo o corpo. Desse modo, a “ordem metabólica” presente é de catabolismo, ou seja, de degradação: os nutrientes que chegam são destinados ás necessidades imediatas do corpo, e não ao estoque na forma outras macromoléculas (o que ocorre, por exemplo, no anabolismo). Não só não se formam novas reservas no tecido adiposo, como também ocorre a degradação dos constituintes dos clássicos “pneuzinhos”.
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Assim, após depleção de reservas imediatas (como as de glicogênio), o corpo usa a já pouca glicose ingerida principalmente para os tecidos altamente dependentes de glicose, e, como medida resolutória geral, passa a disponibilizar corpos cetônicos na circulação, vindos quase que totalmente do metabolismo de gorduras (mais especificamente, ácidos graxos, vindos de triacilglicerídios). É justamente parte desses corpos cetônicos que aparece no exame de urina, e são eles os responsáveis pela cetonúria desenvolvida por todos os pacientes participantes.
O artigo trouxe resultados importantes, mas sua maior característica, na reunião, foi ser o artigo com o maior número de críticas de todos os apresentados até o momento. No começo, identificação de dois possíveis vieses.
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O primeiro é a questão do exercício. O ideal seria a realização do estudo sem fatores de exercícios envolvidos, mas há o fato da incoerência de se realizar um estudo com dieta para perder peso sem se recomendar exercícios aeróbicos semanais. A recomendação, que evitou o caráter anti-ético de não se recomendar os exercícios, trouxe um problema, no entanto: uma variável enorme não foi levada em conta no estudo. Os pacientes faziam relatórios eles mesmos do exercício que haviam feito ou não, informação que nem chegou a ser usada no estudo: não houve separação de grupos quanto a esse quesito. Desse modo, deixou-se solta a pergunta importantíssima: a perda de peso média relatada não poder ter tido correlação mais efetiva nos indivíduos que se exercitaram, correlação mais significativa do que os efeitos intrínsecos da dieta?
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O segundo ponto não deixa de ser, num primeiro momento, inacreditável, pois embora não inutilize a pesquisa traz uma grande surpresa: a pesquisa sobre os efeitos da dieta Atkins foram financiados pelo Centro Atkins para pesquisa em Medicação Complementar! Surte, aí, um enorme problema: a presença de um conflito de interesse. A divulgação de resultados negativos, nessas condições de financiamento, seria tão fácil e tão encorajada quanto a de resultados positivos?
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Outra questão levantada foi um índice de avaliação pessoal no final do estudo, onde se intencionou medir o nível de satisfação dos participantes. 85% das respostas relatou “Felicidade”, o que foi tratado como um efeito da dieta. Em um estudo financiado por uma parte interessada, com uma última pergunta tendenciosa e fora da área de especialidade dos autores, o artigo não deixou de terminar com um ar indicativo de propaganda, que deixou de considerar, no final, os efeitos positivos da perda de peso em si (como “maior felicidade e satisfação” e melhor saúde vascular), expressos tanto na auto-estima quanto na saúde dos indivíduos em questão.

Estêvão Cubas

Um comentário:

CRUZ disse...

É BEM VERDADE QUE RESULTA POR UM LADO SE É O FACTO DE COMER MENOS CARBOS OU MENOS CALORIAS A MIM TANTO FAZ O QUE CONTA É QUE EMAGRECI DEZ QUILOS E ISSO É OPTIMO.RESULTOU É O IMPORTANTE